segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Escrita

1.       Os pecados do discurso.

A pior coisa que pode acontecer a um texto é a falta de expressividade. Pior, inclusive, que não ser lido — ao menos, poupa-se do vexame —. Um texto inexpressivo é aquele que intenta um determinado grau de profundidade, mas esbarra na falta de atenção do seu autor e não passa da superfície do discurso.
É muito comum encontrar expressões que de tão repetidas, não estabelecem surpresas no leitor, e por isso empobrecem o texto: cartada final, lágrimas de crocodilo, faca de dois gumes, caso de amor e ódio, como o diabo foge da cruz, pedra no sapato, frio e calculista, chuva torrencial, memória de elefante, conhecimento enciclopédico, romper o silêncio, formigueiro humano, nó na garganta etc. etc. etc.
O jornalismo, este refém do imediato, também alimenta seus clichês. Basta uma olhada superficial pra dar de cara com os bichos:
Colocar a casa em ordem, chega ao fim a novela da negociação, fechar com chave de ouro, voltar à estaca zero, amarga decepção, calorosa recepção, crítica construtiva, correr atrás do prejuízo, o atleta já está com o passaporte carimbado, em grande estilo, obra faraônica etc. ad infinitum.
Esse tipo de expressão, consagrada pelo uso coloquial, quando se instaura no discurso literário, costuma causar efeito inverso: ao invés de encurtar as diferenças entre emissor e receptor da mensagem, torna o discurso superficial e, por conseguinte, entediante. Quem lê, lê para se informar, para aprender, ser desafiado.
Podemos chamar este processo de escrita automática, em que o autor permite que o texto vá se fazendo conforme os códigos convencionais do discurso, sem uma proposta inventiva de sua parte.

2.       Escrever é um ato de consciência.

Pense numa pessoa chata. Daquelas que só dizem e fazem coisas óbvias. Agora imagine que esta pessoa é um texto: você gostaria de lê-la?
O estilo é o próprio homem. Não adianta querer ser um grande escritor, revolucionar a história da literatura, vender milhões de exemplares, se você não está disposto a sentar-se numa cadeira diante do computador e só se levantar quando tiver boas páginas escritas. Chama-se dedicação: quem dá à sua arte o melhor de si, quem procura ser melhor para dar à sua arte, tem de volta, em proporção, o aperfeiçoamento. E quem procura cercar-se de leituras interessantes, viver experiências singulares, conhecer pessoas de todos os tipos — incluindo os chatos —, torna-se autor de si mesmo, e possivelmente, terá um texto interessante..
Grandes escritores procuram falar de situações comuns a todos nós sem tratá-las de maneira leviana. Exercitam olhar de outra perspectiva para aquilo que é ordinário, e conseguem com isso, resignificar a realidade.




3.      Escritores devem ler.

Os mais atentos notarão que há um tópico de nome idêntico no texto anterior: aqui me permito o artifício da repetição para reforçar o necessário:

ESCRITORES DEVEM LER

Não importa o que se diga, quantas revoluções estejam em voga, nenhuma delas parece ter a capacidade de suplantar o poder de transmissão de experiência que a palavra escrita tem. É de longe a tecnologia mais avançada de que dispomos: com ela, podemos estabelecer comunicação entre nossa realidade e aquilo de mais íntimo que há no outro. Lá, onde nenhum Google consegue ir.

Há um fenômeno ocorrendo atualmente que se caracteriza por uma dessacralização da escrita, em especial por parte de alguns profissionais do meio editorial. O conhecimento de certos meandros do mundo do livro parece ter-lhes saturado em algo, e eles descontam isso sustentado o discurso de que escrever não é um ato sagrado.  Esqueça-os.  Escrever é olhar para quem se é. Se quiser extrair da escrita e da leitura algo realmente notável, torne-as componentes indissolúveis de sua sacralidade; faça da leitura o momento para contemplar o mais íntimo que lhe habita. Depois, devolva ao mundo aquilo que recebeu, através da escrita. Não importa que nome você dê a isso, saberá que algo novo estará nascendo.

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