1. Os
pecados do discurso.
A pior coisa que pode acontecer a
um texto é a falta de expressividade. Pior, inclusive, que não ser lido — ao
menos, poupa-se do vexame —. Um texto inexpressivo é aquele que intenta um
determinado grau de profundidade, mas esbarra na falta de atenção do seu autor
e não passa da superfície do discurso.
É muito comum encontrar
expressões que de tão repetidas, não estabelecem surpresas no leitor, e por
isso empobrecem o texto: cartada final, lágrimas de crocodilo, faca de dois
gumes, caso de amor e ódio, como o diabo foge da cruz, pedra no sapato, frio e
calculista, chuva torrencial, memória de elefante, conhecimento enciclopédico,
romper o silêncio, formigueiro humano, nó na garganta etc. etc. etc.
O jornalismo, este refém do
imediato, também alimenta seus clichês. Basta uma olhada superficial pra dar de
cara com os bichos:
Colocar a casa em ordem, chega ao
fim a novela da negociação, fechar com chave de ouro, voltar à estaca zero,
amarga decepção, calorosa recepção, crítica construtiva, correr atrás do
prejuízo, o atleta já está com o passaporte carimbado, em grande estilo, obra
faraônica etc. ad infinitum.
Esse tipo de expressão,
consagrada pelo uso coloquial, quando se instaura no discurso literário,
costuma causar efeito inverso: ao invés de encurtar as diferenças entre emissor
e receptor da mensagem, torna o discurso superficial e, por conseguinte,
entediante. Quem lê, lê para se informar, para aprender, ser desafiado.
Podemos chamar este processo de
escrita automática, em que o autor permite que o texto vá se fazendo conforme
os códigos convencionais do discurso, sem uma proposta inventiva de sua parte.
2. Escrever
é um ato de consciência.
Pense numa pessoa chata. Daquelas
que só dizem e fazem coisas óbvias. Agora imagine que esta pessoa é um texto:
você gostaria de lê-la?
O estilo é o próprio homem. Não
adianta querer ser um grande escritor, revolucionar a história da literatura,
vender milhões de exemplares, se você não está disposto a sentar-se numa
cadeira diante do computador e só se levantar quando tiver boas páginas
escritas. Chama-se dedicação: quem dá à sua arte o melhor de si, quem procura
ser melhor para dar à sua arte, tem de volta, em proporção, o aperfeiçoamento.
E quem procura cercar-se de leituras interessantes, viver experiências
singulares, conhecer pessoas de todos os tipos — incluindo os chatos —,
torna-se autor de si mesmo, e possivelmente, terá um texto interessante..
Grandes escritores procuram falar
de situações comuns a todos nós sem tratá-las de maneira leviana. Exercitam
olhar de outra perspectiva para aquilo que é ordinário, e conseguem com isso,
resignificar a realidade.
3. Escritores
devem ler.
Os mais atentos notarão que há um
tópico de nome idêntico no texto anterior: aqui me permito o artifício da
repetição para reforçar o necessário:
ESCRITORES DEVEM LER
Não importa o que se diga,
quantas revoluções estejam em voga, nenhuma delas parece ter a capacidade de
suplantar o poder de transmissão de experiência que a palavra escrita tem. É de
longe a tecnologia mais avançada de que dispomos: com ela, podemos estabelecer
comunicação entre nossa realidade e aquilo de mais íntimo que há no outro. Lá,
onde nenhum Google consegue ir.
Há um fenômeno ocorrendo
atualmente que se caracteriza por uma dessacralização da escrita, em especial
por parte de alguns profissionais do meio editorial. O conhecimento de certos
meandros do mundo do livro parece ter-lhes saturado em algo, e eles descontam
isso sustentado o discurso de que escrever não é um ato sagrado. Esqueça-os.
Escrever é olhar para quem se é. Se quiser extrair da escrita e da
leitura algo realmente notável, torne-as componentes indissolúveis de sua
sacralidade; faça da leitura o momento para contemplar o mais íntimo que lhe
habita. Depois, devolva ao mundo aquilo que recebeu, através da escrita. Não
importa que nome você dê a isso, saberá que algo novo estará nascendo.

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